“Não conte a ninguém” era a frase escrita em uma das páginas de um livro que ela lia. O tempo de espera para pegar o avião fez ela relembrar aquela frase dita há alguns meses atrás. Todos os momentos vividos com ele vieram à tona. As palavras do livro já não estava mais sendo interessantes, deixou-o de lado e ficou pensando em como tinham se conhecido.
Foi em um aplicativo de rede social. Daqueles que suas amigas falavam: “Para, você não precisa disso, eles caras só pensam em ter você por uma noite apenas”. Mas qual era o mal disso? pensava ela, “estou sozinha, e gosto de ter alguém em momentos de carência, mesmo que seja só por uma noite”.
E foi assim que ela iniciou várias conversas com diversos tipos de homens, de todos os tipos, profissões, crenças e culturas diferentes. Conforme as conversas iam fluindo, mais aprendia sobre eles, suas preferências, seus medos, suas metas e suas experiências de vida.
Ele era um homem que tinha acabado de terminar um relacionamento de três anos, e todos seus problemas e conflitos amorosos entre o casal foi compartilhado com ela. Toda aflição dele era o que ela mesma sentia, pois ela também tinha terminado seu namoro.
Dias se passavam e os dois conversavam todos momentos, compartilhando situações cotidianas. E um carinho mútuo foi crescendo. Dias passaram a ser meses e ainda não haviam se encontrado pessoalmente. Como uma amizade tão gostosa não tinha ainda passado para o próximo estágio? Enquanto ela conhecia outros meninos, os dois mantinham contato apenas virtualmente, como dois confidentes.
Nesse tempo, muitas situações externas lhes aconteciam. E a amizade criada foi interrompida, quando ele lhe contara que tinha voltado com a ex-namorada. Os sentimentos que então tinham crescido dentro dela ficou estagnado por outros dois meses, até quando ela decide também voltar com ex-namorado. Seu ex estava sendo complacente, e tentava consertar seus erros e conflitos que um dia tivera com ela. E ela deu a última chance a ele.
Passaram mais alguns meses, e foi com uma mensagem impessoal e profissional que ela recebeu do seu amigo virtual, que despertou aquele carinho adormecido. Assim seguiram os dias conversando sobre os projetos a serem desenvolvidos por eles, que eles tiveram que marcar o primeiro encontro. Depois de oito meses que tinham se conhecido pela primeira vez virtualmente, ela o encontrara, finalmente.
Marcaram de encontrar no período da tarde no centro da cidade. Ela estava tranquila, não como talvez ficasse se fosse há uns meses atrás. Era um contato profissional agora, não o amigo confidente. Ela ainda namorava e dele nem sabia mais sobre questões amorosas.
Viu ele descendo a rua e já o reconheceu. Era um homem mau encarado com barba e todo vestido preto dos pés à cabeça. Os próximos momentos foram rotineiros, como duas pessoas tratando de negócios.
Negócios terminados, trataram de comemorar em um bar um pouco mais afastado. Foi ali que iniciaram uma conversa sobre os mais variados assuntos. Nesse momento ele tira uma cadernetinha do bolso e começa a rabiscar enquanto conversava. Desenhos aleatórios feitos pelos dois enquanto conversavam sobre as experiências e conhecimentos de ambos. Enquanto desenhavam, ele estendeu um fone de ouvido para ela ouvir uma música.
“Ah uma música que eu gosto, antiga, dos anos 80”. E naquela cadernetinha foi repassado todas as bandas que os dois lembravam que tinham feito sucesso na época dos anos 80.
Os momentos passaram voando, a conversava fluía, era interessante, engraçado e ambos estavam se sentindo bem um com o outro. Foi quando uma chuva forte começou a cair, e fazia um barulho muito alto nas telhas do bar. Mas a músicas do youtube ainda eram mais alto. Estavam entretidos num mundo só deles. Um mundo que só eles bastavam. Que nada mais lhes tiravam a atenção naquele momento.
Decidiram fumar um cigarro quando a chuva tinha dado uma trégua. A noite estava ainda mais fria por causa da chuva, e ela sentiu frio. “Lembro daquele arrepio que senti. Era um arrepio e uma atração louca por abraçá-lo, me sentir quente”. Era o momento certo. E ela se encostou nele. Uma atitude meio sem pensar, aconteceu. O primeiro beijo. O beijo que demorou o tempo exato, para matar a saudade de todo carinho e atração ressentido e aumentar a vontade de repeti-los novamente.
“Que noite gostosa, que companhia que você me fez”. Ela lembra de como queria ter um registro daquele dia. Mas tínhamos, aquela cadernetinha, gravadas todos os nomes das bandas dos anos 80.
A noite teve que ser interrompida. “Tudo que é bom dura tão pouco por que?” O seu namorado não parava de ligar para o seu celular. Já não dava mais pra ouvir as músicas. O momento tinha passado, então não restava a não ser ter que encontrar com o namorado.
Entraram no carro, e como de costume ela colocou uma música para ficar como trilha sonora do momento. Tinha deixado rolar uma música celta já que ambos gostavam. “Não queria embora, queria ficar mais e mais com você. Como era gostoso ficar com você, sentir sua barba, seu cheiro de cigarro com cerveja até era bom”.
Estavam estacionados em frente a um prédio, e ali ficaram por mais algumas horas, se curtindo, se conhecendo, deixando os minutos passarem por eles, sem ressentimentos, sem planejamentos, sem aflições, sem culpa. O celular já estava no modo vibratório, não estavam mais sendo incomodados com as histórias do passado. “Sim, já era passado. Acredito que quando o beijei pela primeira vez, eu tive certeza que não queria estar namorando. Queria estar vivendo aquilo, até quando durar!”
“Eu estou me sentindo como um adolescente, como isso é bom!” Ele disse. E ela o beijou feliz por ter ouvido tal coisa. “ah essa frase! Nunca mais esqueço dessa frase”. Era algo recíproco. Era libertador para ambos.
A noite ainda não tinha terminado quando ela deixou ele na sua casa. Ela tinha ainda que conversar com seu namorado que estava esperando em um outro bar no centro da cidade. No caminho, ela pensou que talvez se sentiria culpada por tê-lo traído. Mas quando o encontrou, se sentiu em paz. Após uma longa discussão e desculpas esfarrapadas. Ele quis que ela dormia com ele. E ela consentiu, dormiu apenas. Durante a noite, enquanto o sono não vinha, ela relembrava das conversas, das risadas, da sintonia, dos momentos maravilhosos que ela tinha com o outro há momentos antes. E ela riu. E num sorriso nos lábios, dormiu.
“Não conte a ninguém” Foi o que minha mãe tinha dito. Mas os dias passaram, e um dia ela acordou decidida. Tinha decidido terminar com o namorado. Contou a ele que estava apaixonada por outro. Ela nunca tinha sido tão sincera em toda vida. Mas era algo tão intenso que ela mesma não conseguia esconder. Como resposta, ele disse que já desconfiava dos seus sentimentos, já que ela sempre falava desse tal cara que ia fazer o projeto juntos.
A semana passou e ela não tinha comentado nada com o amigo virtual, e agora sua paixão momentânea. E ela simplesmente esperou acontecer. Esperou ele vir atrás. Ele tomar as decisões por eles.
Continuavam a se encontrar, mas algo o continha sempre. Alguma coisa estava acontecendo com ele, que não o deixava aberto para um próximo relacionamento. Ela se viu, o ajudando e dando conselhos quando ele precisava. Foi quando ela o ajudou a sair da casa da ex namorada. E nesse momento, ela acreditara que uma história poderia ser criada a partir dali.
Mas nada aconteceu. Eles continuavam a se encontrar e algo mantinha eles distantes. Era algo que vinha por parte dele. Ou por parte dela? Ela não sabia, e não ousava perguntar. Deixava as coisas rolarem, deixar o tempo lhe mostrar. E ele mostrou.
Ela estava ali sentada ainda no aeroporto, esperando o avião para retornar a sua cidade. E começou a se lembrar dos 5 meses discorridos, desde aquele primeiro beijo. E foi então que se questionou. Era a mudança de jeito dele que impedia os dois ficarem juntos, ou ela começou a olhar ele mais proximamente?
De certo, era algo diferente, algo tinha mudado. Por parte dele ou por ela. Todo o encanto, e a magia que tiveram juntos, todas as qualidades que ela tinha visto nele, por meio das conversas virtuais e daquele primeiro encontro tinham se perdido durante a convivência com ele.
Aquele primeiro encontro ficou de certo marcado no fundo de sua memória, junto com tantos outros momentos que já vivera. Foi assim que outras histórias, com outros amores, vieram à sua mente. E se lembrou de tantos outros primeiros encontros ela tivera, com outros homens, cada qual a sua maneira. Mas todos eles ela tivera momentos diferentes, mas todos ótimos momentos.
Foi assim que percebeu que aquele homem interessante, educado, engraçado, cativante, carinhoso ficou naquele bar, naquela madrugada de quarta-feira ouvindo as músicas de anos 80 enquanto rabiscava a sua cadernetinha.